1° Relato

   "Dona Maria Rosas de Jesus, da fazenda Pau D'Alho, aguardava Dom Pedro I e sua comitiva para um banquete, quando
foi surpreendida por um dos batedores da comitiva pedindo-lhe comida. Para não desarrumar os pratos já prontos, ela deu-lhe
de comer nas próprias panelas de ferro. Trinta minutos se passaram quando o restante do grupo chegou e Dom Pedro saiu da
cozinha pronto para repetir os saborosos quitutes."


2° Relato

   "Fim de tarde e não era outono. Don'Ana pensa, pensa e pensando, a noite chegou, madrugada passou e de manhã quando Inácia trouxe o chá e juntas fizeram a primeira refeição do dia, Don'Ana pediu a sua leal escrava: - Vá até a igreja e peça para o Reverendo que careço confessá. Num agüentando mais! Peito arfante, respiração alterada, recostou e olhou prá janela ainda fechada: nada mais havia de horizonte! Inácia acelerada interrompeu reunião do Pároco e os dois puseram-se a caminho,imediatamente. Introduzindo o padre no quarto da patroa, Inácia recebeu mais uma ordem: - Aprepare um café no melhor trato pro emissário de Deus, o nosso Padre! Saindo, Inácia ficou atrás da porta, ouvido colado. Perplexa, escutou Don'Ana, fragilizada afirmar ao Reverendo: - Tudo o que eu tenho é para ela: as arroba de café, o piano, esse casarão, as mobia, alfaias, enxová, oratório, os santos e os terço. As terras, ficaro c'os meus irmãos e os fios deis, e como Deus não quis me dá um companhero, nem herdero, peço que vosmicê respeite minha úrtima vontade!

   Inácia, em dúvida, tudo "iscuitava", até quando Don'Ana, enérgica, afirmou pro Padre que a decisão tinha vindo das orações daquela madrugada sob a inspiração de Sant'Ana, "a Mãe de Nossa Senhora Maria Santíssima".

   O Reverendo, alterado, ainda saboreou o bom trato: sequilhos, brevidade, um pouco de ambrosia, o queijo forte e quase uma indigestão, com o que escutara!

   Poucos dias depois, Silveiras é abalada e fica estarrecida! Todas as trilhas, grotas, solapões e picos da Bocaina souberam que Don'Ana foi encontrada em seu leito barbarizada: pauladas, machadadas, até as mãos separadas do corpo, cujos dedos - sem o anel de grande valor afetivo - faziam dela a única pianista do município.

   E hoje o sepultamento e o julgamento, resultando na prisão de Inácia e de seu marido, poir, numa noite, entre juras de amor e festa na senzala, ela não resistindo revelou para o seu amado, os últimos desejos de Don'Ana.

   Um certo alívio atravessou todas as casas do município diante da sentença feita. Pelas mãos do leal tropeiro, o dirigente da Ordem Superior, recebeou uma missiva onde o atento reverendo relatava contristado a tragédia com Don'Ana, a justiça dos homens e a ampliação do patrimônio da paróquia local. E durante duas décadas todas as 2º feiras a missa celebrada era por especial intenção e sufrágio da alma de Don'Ana."


3º Relato

   "Onde hoje é o Parque Ecológico de Silveiras e outrora usina hidrelétrica e fonte de abastecimento d'água para a cidade, sempre foi palco do inusitado. Consta que um morador, Camilo, relatou para um tropeiro gaúcho que pela primeira vez passava na região, indo para o Rio de Janeiro, o seguinte: - Voismecê já viu guarda-comida? Voismecê já viu gaveta? E taié? O visitante afirmou que nunca vira guarda-comida nem gaveta nem o quê? - Taié, galfo, cuié, faca... Tudo comprado na Corte."


4º Relato

   “Era o que tinha, aos milhares em toda região. Surgiram em função da notícia do extraordinário volume de minerais preciosos localizados nas “minas gerais” e que foram destino de garimpeiros e faiscadores. O transporte da preciosa carga coube aos tropeiros como também o Ouro Verde (café).
   
   Surpresa, as tocaias aconteceram! Localizadas em curvas, grotas, solapões, criando enorme expectativa entre os tropeiros e os viajantes estrangeiros. Estes estrangeiros chegaram ao Brasil após a vinda da Família Imperial em 1808, originários da França e principalmente da Alemanha. Muitos pesquisaram nossa fauna e flora e alguns, já na metade do século XIX, foram professores junto de enormes fazendas de café.
   
   No trecho entre estas serras sempre chegava a notícia, nos ranchos, que alguém havia tocaiado. E era verdade mesmo! Causos reais e ampliados eram utilizados para iludir ou fintar os credores. Patacas sumiam no meio do caminho, nas “gargantas” das serras, nas “vortas fundas”, nos “corgos” de onça e até nos bebedouros de quatis.
   
   Há comprovação de importante família até hoje, com filhos formados na Europa, filhas recebidas em palácios do Governo, Ministérios, Embaixadas e Cúrias, cuja fortuna incalculável tornou-se inacabável: tudo fruto de tocaias.
   
   A coleção daquele pioneiro investidor em “santos de pau oco” e sua preciosa carga era tão grande que um bloco de descendentes, embora procure negar o inegável, reside em verdadeiros castelos nos locais mais diversos do Brasil. Uma delas mora em mansão na Praia da Boa Viagem – cercada de muros, outra em magnífico casarão no centro histórico de São Luiz do Maranhão, outra mantém exclusiva nascente de água mineral no trecho mineiro do Circuito das Águas, outro no refinado bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro, alguns em discretas “vivendas” nos bairros dos Campos Elíseos e Higienópolis em São Paulo. Muitos freqüentam clubes hípicos, de jogos ou cassinos em Mar Del Plata, Punta Del Leste, Vinha Del Mar e até Monte Carlo e percebe-se que são unidos, separados contudo pela distância. Ninguém admira os Estados Unidos... Vão sempre para a Europa.

   E quando o saldo bancário diminui, há sempre um recheado santo para ser leiloado pela SOTHEBY’S em Londres, Paris e, às vezes, em Nova Iorque. Consta que já tentaram leilão em Tóquio – não deu certo.

   Informações comprovam que o inesquecível patriarca trazia de 400 a 600 muares por ano da Feira de Sorocaba e, num passe de mágica, vendia quase 2.000 destes animais na região. Quem burros não tem, e burros e mulas vende.. de onde é que vem?”
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